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terça-feira, agosto 07, 2012

Vitorino, o Emigrante



"vai devagar, emigrante"
Verão de 2007. 

Brota um dia de sol abrasador na verde Freamunde, e o jovem Vitorino vai ao café do costume ter com os amigos do costume, montado na Casal-Boss do costume.

Um dia normal para o moço, que colocara cuidadosamente o capacete amarelo do Pai na cabeça, de forma a não atrapalhar a acre sensação de paz transmitida pelo SG Ventil pendurado no canto da boca. 

Lá vai Vitorino, filho da terra, estimado por todos, transmitindo carradas de monóxido de carbono para a atmosfera. 


Lá vai Vitorino, inimigo público número um da camada de ozono, cumprimentando todos à sua passagem. 

O Acácio da frutaria, que acena carinhosamente. 
O Sr. Fialho da drogaria, que lhe cospe impropérios derivados da falta de paciência para com o infernal chinfrim vomitado pelo escape da motorizada. 
O Macedo da sala de chuto, que lhe endereça um salutar e bonacheirão "Tudo de bom!" de bochecha rosada. 

Vitorino chega ao café, coloca cuidadosamente uma viscosa bisga no canto do passeio e estaciona a Casal-Boss em cima dos caixotes de fruta. 
"É mesmo à Vitorino", exclamam sorridentes (e babados) os convivas que vegetam à porta do estabelecimento, sinceros admiradores da técnica apurada na arte de endereçar uma bela e consistente bisga enquanto se mantém simultâneamente um SG Ventil repousando nos lábios. 

Vitorino, o orgulho de Freamunde, é abraçado por todos e cumprimentado com os mais doces impropérios (e simpáticas referências à idoneidade de sua Mãe), sinal do mais belo e sincero male-bonding. 

Nisto, o Hino da Alegria enche o estabelecimento - em versão midi. 

É o alcatel do Vitorino, que toca impaciente. O jovem saca da pequena bolsinha preta CK pendurada ao cinto e leva o aparelho à boca. 
Segue-se um alegre porém digno "Atão, caralho?" 

Mas cedo se dissolve o ar casual de Vitorino. 
O sobrolho franze-se em tom de atenção redobrada. 
Adopta um semblante sério, profissional. 

Algo se passa. 

Os convivas em seu redor ignoram-no, viram a sua atenção para o novo videoclip da Ana Malhoa, que agracia os ecrãs da TV do café, obra e graça do Made in Portugal.
Vitorino retorque à chamada telefónica em staccato de tom afirmativo e expectante. 
- "tá bem, caralho", são as últimas palavras docemente proferidas pelo jovem antes de voltar a guardar o telemóvel na sua bolsinha de cinto Louis Vuitton. 

Sem expressão na ruborizada face, Vitorino caminha em direcção ao inerte grupo ainda fixado nos atributos da filha de José Malhoa. 
- "Bou pró caralho mais belho", afirma com a costumeira suplesse. 

O inesperado anúncio cai em saco roto, dado o fascínio do bando com as saltitantes insígnias da jovem artista de variedades na TV. 

- "Bou pró caralho mais belho!!!!!!", vocifera novamente Vitorino na tentativa de chamar a atenção da horde. 

Faz-se silêncio. Aliás, a TV estivera em mute todo este tempo. 

- "Para onde, caralho?", indaga expectante o mais anafadito do grupo, um senhor de meia idade de t-shirt branca com a inscrição "Freamunde Quase Capital do Móvel". 

- "Sei lá. O gajo disse Roma. Onde é essa merda, caralho?", questiona gentilmente o jovem, ainda semi-abananado com a notícia. 


"Io sono spettacolare"
Instala-se a confusão. Cada cabeça, sua sentença. 

Porém, a conclusão é quase unânime, e solenemente transmitida pelo Zé Coxo, jovem trintão de boné JCA ofertado pelo Zé Mota no final de um inesquecível Paços 1 - Ovarense 1 em 2004. 
- "Oube lá, Bitorino...essa merda é no estrángeiro." 

A notícia atinge o mancebo como uma carícia matrimonial do Paco Bandeira: 
- "Eu? No estrángeiro? Mas a única bez que fui ao estrángeiro foi quando fui jogar com o Freamunde à Lixa", asseverou um Vitorino confuso com a geografia nacional. 

- "Ouvi dizer que no estrángeiro as pessoas têm 3 metros de altura e cabelo verde", afirmou cauteloso o senhor anafado. 

Perante o ar cada vez mais assustado de Vitorino, o tipo mais magrinho do grupo - conhecido por ser o habitante de Freamunde com a maior colecção de postais do Bozinoski de férias - pôs água na fervura. Eis Quim Cowboy, boçal e roufenho: 
- "Caro amigo, excelentíssimo colega de viagem na sinuosa auto-pista da vida. Peço mil perdões por interromper esta salutar tertúlia de cariz geográfico, porém penso ter informações relativamente ao paradeiro de tal metrópole. Assevero-o de forma absolutamente humilde e despretensiosa, dado que a máxima socrática "só sei que nada sei" se mantém curiosamente actual. Todavia, creio que vos referis à Pátria de Vittorio Emanuelle II." 

O silêncio torna-se ensurdecedor, apenas quebrado pelos súbitos urros do confuso bando. Zé Coxo enrola-se em posição fetal, agarrado à cabeça. Toni Viagra esmaga cadeiras na parede, qual incrível Hulk tomado de fúria. Dois dos restante convivas berram desesperados, enquanto estilhaçam garrafas de RC Cola na testa. 

Contudo, Vitorino fita Quim Cowboy de olhos arregalados e tom sereno, exortando-o afectuosamente a desenvolver o tema abordado: 
- "Oube lá, queres levar um testo na fronha? Fala português, caralho." 

Quim Cowboy ajeita nervoso o chouriço que guarda no bolso da camisa Fabio Lucci, beija sofregamente o cromo de Pesaresi que traz sempre consigo na carteira, e solta um ansioso "Itália". 

- "Ô?", indaga sagazmente Vitorino. "A cena das pizzas?" 

- "Certamente, camarada. A Itália, oficialmente denomeada República Italiana, é uma república parlamentar unitária localizada no centro-sul da Europa. Ao norte, faz fronteira com FrançaSuíçaÁustria e Eslovénia ao longo dos Alpes. Ao sul.." 

A grosseira exposição de Quim Cowboy é felizmente interrompida por uma garrafa de Snappy que encontra ruidosamente a parte de trás do seu crâneo. 

Vitorino dirige-se calmamente para a saída, enrolando um pensativo elástico entre os dedos, de olhar fixo no chão. A sua vida está prestes a mudar. 
O jovem cantarola entredentes as primeiras estrofes da melodia "Sonhos de Menino", de Tony Carreira. 

De semblante sonhador, ergue suavemente o queixo e balbucia com elegância: 
"Sou um emigrante, caralho." 

Cinco Verões volvidos, Vitorino está de retorno à casa de partida. 
Roma ficou para trás, e os sonhos adiados. Na caçadeira futebolística carrega agora as memórias de tiros disparados na prestigiosa Liga dos Campeões da UEFA, carrinhos mal temporizados em San Siro, passes transviados no Delle Alpi e um olhar crítico in loco à crise da dívida grega. 
Pelo meio, um "buenos dias Matosinhos" com os "aviões lá 'trás" e a indignidade do clube detentor de seu passe ter pago 270,000 € para se livrar dele por uma época. 

Verão de 2012. 

Brota um dia de sol abrasador na verde Freamunde, e o jovem Vitorino vai ao café do costume ter com os amigos do costume, montado na Casal-Boss do costume. 
Um dia normal para o moço, que coloca cuidadosamente o capacete amarelo do Pai na cabeça, de forma a não atrapalhar a acre sensação de paz transmitida pelo SG Ventil pendurado no canto da boca, e sussurra sorridente: 

"Estou de volta, caralho." 

quarta-feira, maio 23, 2012

Assim Se Faz História


As competições profissionais nacionais findaram e com elas a pequena réstia de sanidade que mantinha todo o povo da bola minimamente controlado.

Agora vem a pré-época e com ela todo um tsunami especulativo que promete gerar expectativas histéricas no já de si mui impressionável adepto. É tempo de dar largas à imaginação, tirar fotografias parvas e imprimir títulos que, por qualquer critério remoto, ficarão para a História.

Com base nas experiências passadas, colocámos à disposição um pequeno inquérito na barra lateral para os nossos apaniguados. A ideia é tentar demonstrar que também conseguimos adivinhar coisas sem termos tantos tentáculos como o simpático polvo Paul. E também utilizar uma ferramenta do Blogger que tem sido marginalizada por nós, à laia de um Cebola qualquer desta vida.

São também experiências de defesos passados que queremos partilhar de forma sucinta convosco.
Em 30 de Junho de 2007, Sreten Sretenovic colocou a fasquia bem alta: iria mostrar valor. E “lá dentro”. Mas onde seria “lá dentro”? Dentro de sua casa? Dentro da sua cabeça? Dentro da loja do Benfica a vender camisolas do Bergessio em promoção? Uma incógnita que ainda hoje não foi resolvida. Estes jornalistas d’”A Bola” foram, aliás, as últimas pessoas deste mundo a ver o Sretenovic por mais de cinco minutos. E, obviamente, Sretenovic, esse motor de sonhos a gasóleo, não poderia mostrar valor em tão pouco tempo. Nem valor nem outra coisa qualquer.
Mais modesto, Valeri assumiu em Julho de 2009 que o máximo que almejava por terras lusas era apanhar uma valente carraspana de caixão à cova. O ar tresloucado que aparenta empresta total credibilidade à sua intenção. Também admitiu que sabia dizer uma palavra concreta em português, mas, lamentavelmente, foi logo uma palavra impronunciável no Dragão nessa temporada. Pedro Emanuel e o sorridente prof. Jesualdo, como tipos porreiros, começaram logo a pagar rodadas à vez e a cantar “e se o Valeri quer ser cá da malta, tem que beber esse copo até ao fim” e blá-blá-blá. A bebedeira foi enorme. Há quem diga que já ninguém sabia distinguir o Valeri do Prediger, tal o encharcanço, mas isso é exagero: ninguém conseguia dizer quem era quem mesmo no estado sóbrio.
Em Maio de 2010, era Paulo Sérgio a prometer que não iria ficar em 2º lugar. Eis, finalmente, uma profecia que se cumpriu: ele ficou em 3º. Quer dizer, ele não, que entretanto foi tourear para outros lados, ainda o 3º lugar era uma miragem, mas a equipa que orientaria durante sensivelmente meia-temporada. Não satisfeito, Paulo Sérgio, com a coragem que o caracteriza, avançou que “não viria para encurtar distâncias” – e, de facto, não encurtou, como atestam os 36 pontos finais de atraso para o campeão. E para completar o ramalhete, na mesma frase põe uma vírgula e ameaça “[venho] disputar o título”. O que também é verdade – eu próprio, em amenas tertúlias, disputo títulos amiúde com os meus confrades, seja do maior devorador oficioso de tremoços, seja da bisca lambida. Ou seja, Paulo Sérgio disputou um título, não de futebol, mas, sei lá, do forcado que percebe mais de bola do concelho de Lisboa ou qualquer coisa do género. Portanto, eis um exemplo de como até capas inicialmente tidas como absurdas poderão vir a concretizar-se. Mesmo na silly season.

sexta-feira, maio 11, 2012

Voo de Ícaro


Ricardo Sousa. Houve um tempo em que parecia que os anjos da fortuna lhe tinham batido à porta. Regalou-nos com aquele jeito especial de bater livres. Surpreendeu-nos com aquela marotice original de bater na mulher. Porém, os atrasos insuportáveis na sua afirmação comprometeram o plano. A sua carreira acabou por bater de frente contra um muro de adversidades. Nunca mais recuperou. Era batida a mais. Ricardo acabou por bater ele próprio no fundo. Mas esteve nele, por breves instantes, toda a esperança de uma nação na sua demanda pelo novo “Nº 10”. Um pequeno Maradona à escala lusa. Um Rui Costa menos choramingas. Um Deco mesmo português. Porque o povo gosta destes senhores altivos do meio-campo ofensivo que definem os jogos com a sua indolência, os tais que se permitem alhear por largos minutos dos jogos para depois aparecerem num livre, num passe, numa cotovelada que nunca poderia ser sancionada pelo árbitro. Porque não é justo. Não é, Aimar? O herói não pode ser vilão, senão a história não é boa porque não tem heróis. E tem de haver uma moral. Senão os meninos ficam confusos, choram e depois ninguém se quer levantar da cama para os fazer calar.
Pois é, pensou-se que o Ricardo Sousa podia ser este novo herói, mas nicles.

Quando falamos em nº10 que desapareceram pelas veredas ínvias do deslumbramento, também nos lembramos de Rui Baião. Rui Baião foi, para quem não sabe, a grande promessa das camadas jovens benfiquistas no doloroso período pós-Maniche. Ele e o Pepa, com o Cândido Costa à espreita. O Toy veio depois. Ele e a Sónia Brazão com mais uns travestis. Esperem, era só mesmo o Toy. Estava a confundir o Benfica com um programa de entretenimento para as massas, como é possível? Bom, Rui Baião não fez nada de especial pelas bandas da Luz e nem sequer mereceu as parangonas prematuras de colossos na apreciação de jogadores, por exemplo d’“A Bola” – que chegou a jurar que Makukula era a estátua do Eusébio com vida –, o que, desde logo, lhe augurou dificuldades que efectivamente se viriam a confirmar. Ainda assim, Rui Baião tinha a pose e a mentalidade petulante que eram necessárias para um óptimo nº10. Faltou-lhe qualquer coisa para explodir. Quem sabe, um je ne sais quoi, que é como os franceses dizem “jeito”.

Pode parecer estranho, mas o ponto alto da carreira de Rui Baião aconteceu mesmo antes desta começar. Ou seja, Baião ainda era formalmente um júnior. Está agora a fazer 14 anos. Maio de 1998. Foi tipo um Maio de 68, mas 30 anos depois: a euforia da Expo, a antecipação de um Campeonato do Mundo no qual não estaríamos presentes, os últimos dias do escudo enquanto moeda não irrevogavelmente indexada ao euro, quando tudo o que conhecíamos de séries nacionais de adolescentes era os “Riscos”. Enfim, tempos moderadamente agitados.
Foi neste contexto que os Iron Maiden lançaram o seu 11º álbum de originais, apropriadamente intitulado “Virtual XI”, embarcaram na sua DCLXVIª tournée e visitaram Portugal. A grande inovação desta tournée (“inovação” e “Iron Maiden” são conceitos que, em conjunto, devem ser manuseados com extrema precaução) foi a apresentação de um equipamento de futebol Adidas desenhado por medida para os Iron Maiden; um fatiota bem catita por sinal, atendendo à matriz de gostos em vigor naqueles últimos suspiros do séc. XX. Tinha a sua lógica: 11º álbum, “Virtual XI”, onze tipos equipados, uma equipa de futebol. E então, em Portugal, os Maiden seleccionaram o Benfica para um jogo-paródia, um evento muito mais social que desportivo, mas que foi levado a peito por Baião e que ainda hoje ocupa a maior fatia do seu coração.

Foi um verdadeiro tira-teimas entre o enfant terrible (que é como os franceses dizem “puto estúpido”, uma forma que demonstra todo o savoir-faire que os franceses têm para estas coisas – e “savoir-faire” seria, em bom português, “este tipo de cenas que se faz bem sem saber porquê”) Rui Baião e a besta Eddie. E o resultado foi vistoso. Uma batalha de titãs, cheia de golpes sujos, sangue e esgares algures entre o maléfico e o aparvalhado. O ambiente estava tão de cortar à faca que podia ter inspirado mais um épico dos Maiden, para colocar no final do alinhamento do próximo álbum, tipo “Murders In The Stadium Of Light Morgue”. Baião envolveu-se num tête-à-tête com Eddie pelo domínio do meio-campo. A partida inteira num tu cá/tu lá bastante bravo. Ora saía um solo do mostrengo, ora saía uma finta curta do pequeno infante. Ao assistir a esta luta sem tréguas, o público nas bancadas manifestava-se, com headbangs ou sacudindo bandeiras rubras, sentindo os níveis de adrenalina a atingir o estado de ebulição. A besta hedionda contra o príncipe encantado. A técnica da força contra a força da técnica. Homens grandes contra grandes homens. A beira da estrada contra a Estrada da Beira. Nunca o futebol foi tão gótico nem o heavy-metal tão redondo.

Talvez esteja a exagerar; Baião começou no banco e o Eddie foi comprar roupa ao shopping e não jogou. Não houve armas brancas nem efeitos pirotécnicos. Não se viram tampouco instrumentos musicais, se exceptuarmos o teclado bocal do Mozer. E nem sequer foi um jogo muito bem disputado. Mas foi o resultado mais avultado do Benfica dos últimos 15 anos: 10-1. Deveria estar escrito algures que, de modo a manter a coerência com a simbologia do nº11, teria de haver 11 golos… e assim foi, depois de uma primeira parte equilibrada. O Benfica teve sorte. Dos Iron Maiden só jogou o Steve Harris, ele ainda por cima andava em baixo de forma e os roadies que os substituíram tinham demasiada bebida no buxo para correrem, mesmo que fosse para correr atrás do Shéu. Se o Bruce Dickinson estivesse lá, com certeza que as coisas teriam sido diferentes.

No final, para a posteridade, fica a mescla entre o bigode típico português e o heavy-metal britânico, entre as panças de tintol e as barrigas de gin, entre a guedelha experiente de Harris e o jovem cabelo à tigela de Baião. Baião que, sendo uma águia, voou na sua carreira como Ícaro: directo ao sol para cair no mar do anonimato.

sábado, maio 22, 2010

Les Misérables

França. Esse país exótico, tão afamado pelas baguettes, vinho, queijo e por mulheres que não conhecem os prazeres da depilação. Em termos futebolísticos, a relação exportadora com Portugal nunca foi a melhor. Senão vejamos.
Napoleão esteve por cá durante o século XIX e não guardou grandes recordações. Passaram-se longos anos sem episódios dignos de registo, até que, no Verão de 1990, voilá!, aterra no nosso país a grande promessa Stéphane Paille. No Porto, arrebitaram-se as sobrancelhas, o povo soltava oh-la-la’s de espanto, estava ali o melhor jogador do campeonato francês de 1989. Vlk, outra contratação desse ano que em condições normais mereceria todas as atenções pela sua estranha conjugação de consoantes, foi relegado para segundo plano: os olhos estavam todos em cima do bom do Paille. Mas assim que a bola começou a rolar, uma aura de desilusão assombrou o anfiteatro das Antas. Longe dos Campos Elísios, Paille não conseguia desenvolver todo o seu propalado potencial. Kostadinov exasperava perante mais um pontapé de Paille na atmosfera, questionando “Então, Stéphane? Que m***a foi essa, pá?”, num português tão explícito que toda a bancada percebeu que teria de ser Domingos a ter Paciência para aturar o génio difícil do búlgaro. Paille, apesar de francês, não se deu bem na terra das francesinhas. O treinador disse-lhe “je suis très désolé” e Paille esforçou-se por não contrariá-lo, nem sequer indo para o banco em algumas ocasiões. Passado um ano era devolvido à precedência e o FCP ainda não recuperou totalmente desse enorme trauma: só no novo século voltou a contratar um francês, o pouco ortodôntico Cissokho, e mesmo esse não se aguentou lá por muito tempo.
Mais a sul, também se quis descobrir o perfume gaulês nos anos 90. Mas os resultados não foram mais animadores. Foi uma época de revoluções, aquela que o Rei Artur, também ele um francófono, quis implementar no SLB em 1994. Já havia Nelo e Tavares com o papel da artilharia pesada no meio-campo, então faltava só alguém para acender o rastilho. E esse alguém era Jean-Jacques Eydelie, a quem Rei Artur, lânguido, soltou por entre o seu robusto bigode: “Voulez-vous jouer avec moi… ce soir?”. Eydelie, um exilado da estirpe de Bonaparte, era um cintilante mago da bola cujas trapaças da vida o enredaram para fora do seu país Natal. Regressou da sua ilha de Elba, enamorou-se pelo SLB como Tomasson e vestiu a camisola como Rushfeldt. Serviu-lhe e ele ficou. Porém, nas contas finais, nem um minuto para amostra. Jogou menos que Andrés Diaz. Repito: jogou menos que Andrés Diaz. Pronto, jogou tanto como Simanic. Ou como Abazaj. Mas isso nunca pode ser um bom termo de comparação. O fantasmagórico Eydelie rumou em busca do seu Waterloo mal a época findou, como parecia evidente. Só mais tarde revelaria que a sua permanente ausência dos relvados lusos fazia parte de uma promessa pessoal, consubstanciada num livro com um título deveras sugestivo. É pena, Eydelie tinha um cabelo muito frondoso e daria um excelente cromo, mas nem sequer apareceu para figurar nas nossas colecções. Fica aqui a nossa lembrança, ó Jean-Jacques.
Mais ao lado, demorou só um pouco mais para chegar o primeiro exemplar francês. Nome de guerra: Didier Lang. Não, não era tão langão como o Pedro Barbosa. Mas também ficámos sem saber bem como seria ao certo. O tipo tinha um certo aspecto francês, lá isso é verdade. Tinha cara de ter uns pais que possuíram orgulhosamente um Citroën boca-de-sapo e que ficava até tarde a ver repetições do Hinault na Volta a França. E até podia ser jogador de futebol, mas isso até o Vidigal era e não vinha de França. Concretamente, Lang foi o Ivo Damas antes do próprio Ivo Damas: tinha deslumbrado, no que provavelmente fora a noite da sua vida, num jogo em que o semi-anónimo Metz, ainda menos cotado que o Martini com o mesmo nome, despachara o SCP da UEFA. E como recompensa veio cá passar um ano tranquilo. O Damas só viria mais tarde no desenrolar da época e, como é óbvio, Lang perdeu o seu espaço. Lang conheceu Bruno Giménez e César Ramirez, trocou contactos de telefone com Saber, contou uma anedota ao Leão que este não percebeu e pisou uma vez um presente canino à entrada da porta 10-A, por estar distraído a ouvir Edith Piaf no seu walkman. E é tudo que se sabe. Tal era o estado do SCP nesse ano que até jogou bem mais do que o bom senso recomendaria.
Depois destes pioneiros, a torneira francesa começou a abrir-se mais um pouco. Com especial incidência para os gardiens de but: o eterno Palatsi, Yannick (que não Djaló), Debenest, Quievreux e Peiser. E tipos de sucesso, como o estóico Quevedo, senhor do lado esquerdo da defensiva, o típico nº5 que acabou por merecer um perfume com o seu nome, como pode ser visto acima. E tipos esquisitos, como Dyduch e Rabarivony. E tipos que eram humanos, sim senhor, como Agasson e Paviot. E Tixier, Desmarets e Kelly Berville. E o afrancesado dos Santos e o multimilionário Laurent Robert. E o acidentado Sinama-Pongolle, a escrever história neste momento. E aquele que merece toda a nossa simpatia, que é o Godemèche. Je vous aime et moi non plus. Merci beaucoup.

terça-feira, maio 11, 2010

O FILIPE.

Olhem para mim, tenho cara de Filipe.
Sim, sou minimalista. Só preciso de um nome, ainda por cima um nome próprio.
Sim, uso brilhantina. Tenho que aproveitar, enquanto o cabelo não me começa a fugir da cara, como aconteceu ao Caccioli.
Há quem me compare ao Mike Patton.
Mas Patton, só o General, porque "Faith no More" poderia ser o lema do Sporting, e não um nome de banda. Aquela cena da devoção, e o cacete, já deu o que tinha a dar.
Sim, sou minimalista. Ouço Kraftwerk. O pessoal não entende. O Patrick Asselman prefere ouvir Scooter e mete-se com os meus parcos centímetros. Sinceramente, acho que isso é bastante infantil. Estou acima dessas coisas. Uso brilhantina e gosto. Ouço Kraftwerk e tenho orgulho nisso. Não chego à prateleira de cima, mas tenho tudo o que preciso cá em baixo, tipo ketchup e graxa prós vitorinos de verniz.

Joguei no Chaves. Na verdade, acho que sou uma espécie de J'aime Cerqueira metrossexual.
Jogo no meio-campo, sou genial, todos os anos vou dar o salto, vou chegar à Selecção, não chego, lesiono-me, vou parar a clubes do meio da tabela e dou com a fronha no catano do Chaves.
Soa-me a J'aime Cerqueira. Se não depilasse a monocelha, até corria o risco de acabar a carreira a jogar a central no Aparecida Futebol Clube. Mas eu conheço-me.
Sou minimalista, uso brilhantinha, ouço Kraftwerk e vou pendurar as chuteiras num jogo de homenagem em San Siro, com 80 mil tiffosi do Inter a entoarem cânticos de "Filipe, il piccolo grande calciatore" com a melodia de "Trans-Europe Express".

Tenho confiança no meu futebol. Eu destroco futebol. Vejam o meu esgar de superioridade nas fotos. Sim, sou melhor que vocês. Acho que devo franzir as sobrancelhas, enrugar a testa. É o meu dever. Exprimir desconfiança perante o patético repórter fotográfico que se masturba mentalmente com a perspectiva de fotografar o próximo grande jogador do futebol Europeu.

Sou pequeno, mas sei onde quero chegar. Afinal, comecei a carreira a isolar o luso-beckham Rosário em frente aos desamparados keepers adversários. Tive o Margaça progenitor - estóico - a guardar-me as espaldas.
Quem nasce em berço de ouro, não se contenta com talheres de prata à refeição. Eu quero tudo. Quero desmarcar o Ouattara, quero driblar o Quintana, quero levar a multidão ao orgasmo colectivo, à mais profunda desilusão. Quero ousar aquilo que jamais J'aime Cerqueira ousou, quero pintar a mais bela obra de arte, quero re-esculpir o Colosso de Rodes com as minhas próprias mãos, a solo. O futebol não se irá esquecer de mim.
Eu uso brilhantina. Ouço Kraftwerk. Franzo as sobrancelhas, porque sou melhor que vocês.
Eu sou Filipe (e vocês não).

segunda-feira, março 08, 2010

O Pequeno Quim

A rede balançava, ele dançava, o público jubilava, e Deus – algures – exultava.

Vivaça era a vida do Pequeno Quim, grande no porte, insurrecto petiz de alma, sangue ardente no esculpido corpo, seu instrumento de trabalho. O Pequeno Quim era assim: exuberante como uma multicolorida borboleta, crisálida de eleição, e potente como um furioso touro, acicatado pelo vermelho-chama do fogo que lhe alimentava o Ser: o golo.

Incompreendido pelo estimado mentor (“one touch, two touch, quimmzin-ho goal”), o flamejante aríete do continente negro procurava refúgio nas bancadas, onde era amado como nenhum outro, em pleno auge feudal de D.Mário Jardel, o Primeiro. O Mantorras antes do Mantorras, este sim, a alegria do Povo, com dois joelhos e tudo – pois sem eles não conseguiria bailar Kuduro. Endiabrado, o Pequeno Quim.

Futebol-esquadro? Coisa para operários com bota quadrada, mais Alfaias que Nandos, menos Constantinos que Caos. Geometria sempre foi coisa para maricas. Futebol é Paixão, Calcio não é Catenaccio e Prof. Neca não é senão um calvo Darth Vader, enviado da Estrela da Morte para nos sugar o prazer da sumarenta clementina do beautiful game. O Pequeno Quim não nascera para traçar rectas a esquadro – o Pequeno Quim era o anti-Custódio, antes gingar que quebrar, nascera para emocionar, negra pantera de tardes gloriosas com o azul Dragão ao peito.

Porém, sempre apaixonado pela polémica, o Bigode de António Oliveira decidiu não ouvir os apelos da bancada. A central pedia Quim, a superior pedia Quim, até o tribunal por Quim clamava. Mas a única emoção a Quim ofertada, foi a da despedida. Uma dura, amarga despedida.

Já que o Pequeno Quim se assemelhava a uma locomotiva desgovernada nos trilhos do tapete verde, lá decidiu fazer da fama proveito e transformar a sua carreira numa espécie de percurso de Intercidades que pára em tudo o que é apeadeiro sem pedir licença.

Assim, fica a recordação da trajectória CP-style, com atrasos, croquetes a bordo, crianças a chorar, e claro – golos a brotar do ar condicionado desta carruagem em alta rotação: Leiria, Vila do Conde, Faro, Vila das Aves, Alverca e Estoril. All aboard, the Quim Train.

Sob a asa de um génio indomável, a locomotiva atravessou Oceanos, atropelando Peixes e engolindo Figos, chegando assim à China, continente sem Brunos ou Coentrões de cabelo pejado de parafina.

Qiao Ji Ma, nova identidade do petiz vagão ferroviário, corcel indomável no continente amarelo de carroça puxada a arroz. “What’s in a name? A rose by any other name would smell as sweet”, já dizia Mark Pembridge. Qiao Ji Ma concordava, acenando afirmativamente com o seu potente crânio. O título pode ser outro, mas o texto conhecia semelhante epílogo: golo, golo e mais golo. Ou Kwame Ayew – é assim que se diz golo em chinês…ou pelo menos foi o que o Duah nos contou.

De qualquer forma, após menear as ancas pelas bandeirolas de canto um pouco por toda a Ásia, Qiao Ji Mu decidiu regressar ao País que o viu nascer – o País que deu nome a Zé D’Angola, curiosamente um orgulhoso cabo-verdiano. Ou se calhar não será assim tão orgulhoso, mas cabo-verdiano é de certeza. E o Pequeno Quim - esse - é de novo Pequeno Quim: irreverente, poderoso, calvo, e apostado em tratar a bandeirola de canto como Axl Rose tratava um microfone, pois com Pequeno Quim, o rock n roll nunca morrerá.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Época de saldos e devoluções prematuras

Já passaram pela situação de emprestar uma camisola velha a um amigo, mas vê-la prontamente devolvida porque afinal era inútil, tinha defeito, ou porque ele acabou por comprar uma melhor?
São Costa também.

sexta-feira, outubro 16, 2009

É Petrogal, Ninguém Leva a Mal

Era uma vez uma jovial agremiação de Leça da Palmeira, solarenga, alegre e com futebol para encher a nação inteira. Lá dançavam futebolistas aos pontapés, vitórias brotavam pelo País de lés-a-lés.
Havia Róscar, Chico Nelo e Nando; havia galhardia e até um Armando. Tempos felizes, tempos de fartura; caçava-se perdizes e degustava-se a gordura.












Róscar, o despenteado porém sonhador petiz, desenhava uma promissora carreira a giz. Quem chegou o apagador ao quadro e rasurou esse futuro, não seria com certeza um fã de kuduro.
Seria possivelmente um adepto da chanson pimba, tal como Chico Nelo. O irrequieto vagabundo de capilar monumento canalizava energias de Nel Monteiro, o popular portento.
Chico partilhava a meia-lua com o virtuoso Nando, a proverbial voz de comando. O semi-calvo fantasista de cariz ofensivo servia o couro aos avançados, qual garçon ofertando um aperitivo. Quem não se lembra desta criativa mente de pornográfica chuteira fluorescente?












Mas também de Serifos se fazem as conquistas. Avançado acutilante, esculpido em carvão e transformado em diamante. Monarca leceiro, Weah da Petrogal, ídolo dos adeptos pese embora o golo não ser ocorrência normal. Tão grande era a sua popularidade, que o Windows dedicou uma font à sua genialidade. MS Sans Serif? Homessa! "sans" o "Serif" ninguém se recorda do Leça!
Outro artista com nome de Rei: Jordão era um imberbe reguila, mas já impunha a sua Lei. Sem pistola no coldre ou chapéu de cowboy, a cerebral promessa era adepta do não mata, mas mói.
Sobra-nos o nome de Jarrais. Sempre sorridente, de pêlo sedoso e sobrancelhas bestiais.












E já que falamos em bestiais, recordemos o senhor de bigode que aconchegava o banco de Vladan em dias pares, ímpares, tardes incomuns e noites normais. Bestial era o seu nome do meio, bestificante a sua elasticidade, e felina era esta nossa besta incapaz de abocanhar a titularidade.
A palavra bigode, substantivo de inusitada importância, teria sempre que vir acompanhada deste elemento de superlativa militância: Matias, o valoroso central - betão armado no cerne da defesa, arranha-céus de pilosidade supralabial.
Utensílío de lavoura, ou membro da resistência timorense? Grite-se Alfaia, qual Xanana reclamando a independência. A talhe de foice, houve timorenses falsos de Vera Cruz mascarados; lembro-me de Esquerdinha e Ronny, laterais malfadados. Mas conterrâneos de Gusmão só houve um, com nome de tambor de Maracatú e duro como uma cana de bambú.












Para finalizar o passeio, revejamos apenas as luvas de aço na esfíngica figura do gigante vivaço.
Vladan, o colosso sérvio de irascível temperamento, temível aranhiço que rechaça bolas a contento. Um homem duro, de granítica expressão, que não admitia miminhos ou festas, mesmo vindas de um campeão.
É verdade, um campeão europeu que habitava em Leça e não se chamava Amadeu. Seu nome era Festas, coberto de glória em 1987, galhardo central no relvado e com soltura na retrete. Experiente, mandão e de franjinha impecável, perante os avançados já não era nada amável.
Para oferendas aos cientistas do golo tínhamos o Isaías, uma versão sem bigode do Matias. Um simpático central de aspecto relaxado, e um respeitável penteado amiúde bem cuidado.

Assim abandonamos Leça da Palmeira, despedimo-nos dos hombres da IMOLOC e da Divisão Primeira. Aguardamos o regresso algures pela Exponor, com Vinha, sem Vinha, mas sempre com muito amor.

terça-feira, outubro 13, 2009

A Malta de Alverca 1997 - parte 1


A propósito de jogarmos contra Malta amanhã, há uma malta que vale a pena falar ... Alverca 1997 - Uma boa colheita sem dúvida.
Para começar, esta equipa tem um mister de Luxo, MÁRIO WILSON!! "Qualquer treinador pode ser campeão no Alverca" terá dito este sábio mister.

12 anos após essa época, vale a pena olhar para as fronhas desta malta.
E que malta!
Localizando e contextualizando, o Alverca estava na II Divisão de Honra (mas que Idalécio nome). Após uma epoca com Mário Wilson e José Romão como timoneiros, a ambição era grande. Não poderia subir à I Divisão, como satélite que era do Benfica, mas então era um viviero de futebolistas com largo futuro.. atenção que largo nao significa bom!

E entao olhem só para esta defesa:

- Hugo Costa: prometedor, o novo F. Couto, escolas da Luz, Selecções jovens qb.. Nascido no Tramagal, cedo tramou que queria ir para o Benfica. Hoje em dia joga no Pinhalnovense, depois de passagens por clubes europeus como o Atromitos Yeroskipou, Stoke City e RW Oberhausen. Agora joga no clube de Pinhal Novo, para pelo menos sentir que rejuvenesce e o futuro será mais risonho. Mas em 97, 30 jogos no Alverca.

- Nélson Morais: Defesa direito, escolas de Corroios, mas mais um que vai para a Luz e conclui a sua carreira de junior no Benfica. Na selecção é presença assídua.. Veloz, baixo, ágil, parece ser um lateral à Roberto Carlos. Mas mais uma vez, Alverca, Campomaiorense, Leiria.. e o fim no Seixal, ainda com 30 anos! Pobre Nelson Morais... Mas em 97, foram também 30 jogos no Alverca.

- José Soares: Mais uma promessa. Neste época de 97 faz também 30 jogos. Em grande Ze´!!Mas onde começou Zè Soares a carreira? Começa na sua terra natal, Elvas pois então! E depois muda-se para... ora lá está ! adivinharam , é a escola da Luz, sempre muito profícua. BBBBBBBBenfica!! E depois lá começam os Famalicões, os Alvercas, o Campomaiorense (o célebre duelo com Jardel.. inesquecível) , o Aves,.. e depois a óbvia internacionalização.. começando pelo Istres de Frauunça, mas que nao deu para sentir-se um verdadeiro emigra. Pelo que logo a seguir, toca a ir para a Alemanha jogar no Schweinfurt!! Bem, nao estava a ser muito positivo.. e porque não ir até à terra do pittrólio? Arábias é sempre espectacular. vai daí, All-Itthiad e Al-Shamal foram os novos estádios que viram Zè Soares em todo o seu esplendor. Jardel é que ja sentia falta dele em terras de Campomaior, por isso pedi-lhe "Ei, Zé, cára, veim para Portugaul novamentchi! Elvas precisa di tchi!!. Quem sabe a Manuela Moura Guedes nao o chama para ume entrevista !!" E José Soares, grande amigo de Jardel, acabou por regressar ao seu clube natal. Mas a TVI não quis nada com ele. Eis que a meio do ano, surge um convite para conhecer a bela India! E o Caminho das Indias leva-o ao Salgaocar... nao , nao é um stand. é mesmo um clube. Bem... era qualquer coisa que queremos pensar que era um clube..!

Toda a aventura tem um fim e Zé regressa novamente. Por isso, Elvas volta a vê-lo jogar!! Excelente, amor á terra... ups.. eis que surge o convite do Badajoz! E voilá, emigrante de luxo em Esspanha, mais um!!!
Pelas últimas notícias que conseguimos apurar, consta-se que este ano Zé Soares passa o dia a cantar "Ó Elvas ó Elvas, Badazóoooooooz á vista... sou contrabandista de cortes e carrinhos ao Jardel, transporto no peito o embelema dos carameloss.. o embelema dos caramelooooooooos, o embelema dos carameeeeeeeeeloooooss! "


segunda-feira, setembro 21, 2009

Do Rocky I Ao Rocky VI

Por Javier Balboa

Rocky I – O Schuster disse-me que não contava comigo para o Real Madrid. Não me surpreendi: eu vi logo que o gajo era racista. De alemães não esperava outra coisa. E então fui dar uma volta. Estava eu a ouvir Bob Marley lá para os lados do Paseo de la Castellana quando um tipo cheio de estilo me abordou. Olhei-lhe para os óculos escuros e para a camisa aberta, cheirei-lhe o óleo que escorria das suas melenas e desconfiei logo: “Mau, queres ver que vou ter que aturar com ciganos a estas horas!...”. Mas o tipo não era cigano. Dizia que era o Rui Costa do Maior Clube do Mundo e tal e eu pensei bem e disse-lhe que não conhecia nenhum Costa no Real Madrid, e ele, ah e tal, mas este é que é mesmo o maior clube do mundo e o camandro, e eu “’Tá bem, ‘tá; vai mas é dar uma volta” e ele sacou de uma mala com 4 milhões e eu então rendi-me às evidências e tornei-me no novo Eusébio, o último de uma longa linhagem, contou-me o Costa. Eu só me lembrava do gajo do Barcelona que nada tinha a ver comigo, mas não quis contrariar. Preparei a bagagem e parti para o oeste bravio, para aquela terra a poente da Andaluzia, em busca de um papel que revitalizasse a minha carreira.

Rocky II – Fartei-me de ouvir “Eye Of The Tiger”, dos Survivor, nos primeiros dias em Lisboa. Tan. Tan-tan-tan. Tan-tan-tan. Tan-tan-taaaaan. Raio da música, é mais velha do que eu e os Survivor foram apenas um pouco mais que uns “one-hit-wonder” dos anos 80. Devia ter-me apercebido deste mau agouro. Mas o pessoal via-me a saltar à corda e a subir escadas e delirava. Tudo parecia correr às mil maravilhas e eles ainda não me tinham visto sequer a tratar uma bola. Claro que houve alguns mal-entendidos pelo meio. Houve um adepto que me disse que gostava mais de me ver a matar russos e eu respondi-lhe que esse era o Rambo, eu quanto muito seria o Rocky, mas era tudo Stallone e tudo bem, tem a sua graça. E houve um que me disse que tinha gostado de me ver no filme d’ “O Predador”, mas eu disse-lhe que esse era do Schwarzenegger e ele, “não, pá, não ‘tou a falar do herói…. tu não eras o monstro?”. E então amuei e fui jogar Playstation com o Mister Flores, que era um craque na matéria e nunca dizia que não a um jogo – isto até a Orsi Fehér começar a aparecer lá por casa do mister a querer jogar connosco, altura em que o Mister se tornou mais distante e estranhamente salivante da boca. “Solo tengo dos comandos, tío”, desculpava-se, enquanto me batia com a porta na cara.

Rocky III – Foi muito difícil adaptar-me à língua portuguesa. Um gajo vem habituado a ouvir “ipor la derecha!” e depois ouve um tipo a dizer “encosta-te à direita!” e dá por ele a centrar a bola contra o passarão que estava no último anel. Com o passar do tempo, comecei a ser menos respeitado que esse passarão. Um dia o Costa virou-se para mim e disse-me “tu hoje vais dividir a tua ração com a Vitória, que isto dos alimentos para animais está caro e ando a contar os tostões para fazer mais uns quantos milhões e contratar um espanhol de jeito” e eu calei-me e não comi durante dois meses. Depois formaram uma espécie de Soweto na Luz e fizeram com que eu, o Makukula, o Adu e o Zoro fôssemos amigos à força. O Binya era para se juntar ao gueto, mas até o Costa achou que isso poderia dar azo a uma acção do Corpo de Intervenção da PSP. O Yu Dabao também passou por lá, mas depois arrendou uma zona comercial de 400 m2 com a família dele e foi montar o seu negócio. O Mister Flores meteu-me a titular pela primeira vez num jogo de uma taça esquisita e eu fui para lá apostado em mostrar o meu valor. Mas eu já estava demasiado acostumado à Playstation e passei o tempo todo à procura de um monitor e com os polegares metidos para dentro. Ao fim de 37 minutos de muito gritar e esbracejar, o Mister retirou-me e eu fiquei muito triste e nunca mais fui jogar Playstation à casa dele. A Orsi que o ature.

Rocky IV – O Mister Flores foi-se embora e as pessoas lamentaram muito e acenaram muitos lenços na sua despedida, mas perderam logo toda a lamechice quando foram buscar o “Exterminador” para Mister. Percebi logo que tinham mudado o paradigma de filme de acção. Eles não queriam humanos, queriam máquinas. Comecei a sentir o tapete fugir-me debaixo dos pés. Mas tinha sido apenas um sonho. Quando acordei, o que me tinha mesmo fugido era o recibo de vencimento. E eu, ó diabo, tu queres ver?, fui falar com o Costa e ele, ah e tal, agora não dá, dói-me a cabeça, estou com o período, tive um dia de trabalho muito stressante, nem sequer fiz a depilação, querido, e eu, ai, ai, ai, onde é que eu já ouvi isto?... e confirmou-se, o Costa, esse promíscuo, andava com outros e já não queria saber de mim para nada. E eu assumi uma posição de força e fiz-lhe ver que “eu sou o Balboa!” e ele “pois, está bem, e eu sou um ganda director desportivo, queres ver?” e eu constatei que mais nada havia entre nós os dois. Rasguei a fotografia que tinha na minha carteira e chorei muito, mas que se lixe, directores desportivos há muitos e eu sabia que ainda tinha muito para dar à Playstation.

Rocky V – Tentei ir jantar fora mas disseram-me que os cães não podiam entrar. Eu disse-lhes que não era um cão, era apenas um extremo espanhol de cabelo esquisito e eles responderam que vai dar ao mesmo. Cheguei a casa e o senhorio tinha-me despejado, alegando que eu nem sequer possuía personalidade jurídica. Procurei arranjar casa numa habitação social mas os ciganos disseram-me que eu era má vizinhança e tive que me arranjar no barracão dos No Name até rebentar uma bomba que o destruiu completamente. Agora o meu grande amigo é o Jorge Ribeiro. Nem sequer é o Maniche, é o irmão mais novo dele, o tipo que levava na tromba do Maniche. Não posso ir mais abaixo. O Costa mudou o número do telemóvel e disse-nos que não podemos ir ver os jogos porque temos mau karma e também porque cheiramos mal por não termos dinheiro para pagar a água e tomar duche. Não nos deixaram entrar nos balneários, acusando-nos de termos pé de atleta e que isso era um fungo muito contagioso quase do tamanho do Saviola. Como também não nos deram bolas nem pudemos utilizar os campos de treino, eu e o Jorge Ribeiro entretivemo-nos a jogar à sardinha numa bancada inacabada do Seixal das 8:30 às 18:00. Um dia jogámos à macaca e ganhei com tanto à-vontade que o Jorge ficou muito triste. Dei-lhe o pão com fiambre que iria ser a minha ceia de Natal só para o ver mais arrebitado.

Rocky VI – O futuro pertence a Deus, que é como quem diz ao Costa. Ou seja, esperam-me longos meses nas filas do Centro de Emprego e Formação Profissional. Equacionava entrar no programa das Novas Oportunidades, mas o Costa tem medo que eu vá para o Porto. O Evangelista do Sindicato diz que eu sou um burguês com uma cláusula de rescisão de 20 milhões e que tem saudades de falar à televisão com o Jardel ao lado e uma piscina ao fundo. O Jorge anda esquisito, noutro dia vi-o a falhar penalties imaginários na Sopa dos Pobres e a rir-se para si mesmo. O Costa faz de conta que não me conhece, mas eu sei que o seu coração, lá no fundo, ainda bate por mim. Afinal, 4 milhões não se podem esquecer assim de um momento para o outro. O Exterminador não nos pode ver à frente, nem a mim nem ao Jorge, e quando nos vê ao fundo começa logo a dizer “voceses os dois, quero que desamparem a loja e não aparecem cá nem nos intervais dos jogues, ‘tá bem?” e eu não percebo nada mas sei bem reconhecer a fúria de um Exterminador quando olho para aqueles olhos vermelhos. Sem dúvida, o Benfica está a ser o maior filme da minha vida.

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